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Construindo laços de amor

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Pais e especialistas falam da alegria e dos desafios da adoção

Histórias de abandono, negligência e violência aguardando uma mudança de enredo compõem as páginas dos processos de adoção. De um lado, a fragilidade e a necessidade de acolhimento; do outro, braços e corações dispostos a abraçar, envolver-se, doar-se... Um recomeço, um novo capítulo começa a ser escrito nas vidas de quem é adotado e de quem adota. O medo, a insegurança e o estranhamento de conviver com um novo ser, comuns também na vida de pais biológicos, vão dando espaço a outros sentimentos, a novas descobertas e à certeza de que o amor supera qualquer laço de sangue.

Ser mãe sempre foi um desejo de Karen, mas, por vezes, a carreira profissional falou mais alto que a vida pessoal. Até que chegou o momento em que ela percebeu que a vida não fazia sentido sem a família. Nessa ocasião, Karen morava em outro estado e trabalhava como médica em um dos principais centros de referência de sua especialidade.

Tão logo se organizou em Belo Horizonte, Karen começou a estudar o processo de adoção, entrando com a documentação necessária para conseguir a habilitação. Cumpriu todas as etapas em oito meses: "Aproximadamente 70 dias após a habilitação, recebi um telefonema. Havia uma criança disponível para a adoção com o perfil que eu havia solicitado. No dia seguinte, já estávamos no abrigo. Peguei aquele ser estranho no colo, totalmente sem jeito e extremamente emocionada.

Karen contou que, ao ler o relatório médico, não entendeu nada. Mas o diagnóstico era o menos importante naquele momento. Voltou para o trabalho, sem conseguir concentrar-se. "Ao deitar, fiz uma prece, pedi a Deus para me ajudar a tomar a melhor decisão e sonhei que eu estava cuidando dela. Após cinco intermináveis dias, ela chegou. De estranhas, passamos a ser o amor da vida da outra", declarou.

ANÁLISE CRITERIOSA - O trabalho é árduo na Vara Cível da Infância e da Juventude da Comarca de Belo Horizonte, já que o processo de adoção envolve várias etapas. Analisar, com toda cautela possível, as necessidades de cada criança disponível para adoção e a situação dos interessados em adotar são tarefas criteriosas que demandam responsabilidade. O ato de adotar requer convicção daqueles que optam por esse caminho. "A motivação dos pretendentes à adoção tem que ser legítima", ressaltou a então coordenadora do Setor de Estudos Técnicos da Vara Cível da Infância e da Juventude da Comarca de Belo Horizonte, psicóloga judicial Rosilene Barroso.

São vários os perfis de crianças escolhidos por interessados em adotar - bebês de zero a um ano, independentemente da cor e do sexo; crianças de zero a três anos, de ambos os sexos e com problemas de saúde tratáveis; meninos e meninas de zero a cinco anos saudáveis, e assim por diante. Mas, muitas vezes, explica Rosilene Barroso, o perfil das crianças e ou adolescentes inicialmente declarado pelos pretendentes não condiz com a rotina destes. "Temos que promover essa reflexão junto aos interessados, tendo em vista os melhores interesses da criança.

Rosilene Barroso informou também que, quando há uma criança disponível para adoção, o setor verifica a lista de habilitados. Se o próximo pretendente do cadastro optou por perfil ligeiramente diferente daquele da criança disponível, ele é consultado e, muitas vezes, abre mão do perfil inicial.

Sobre a atuação da Vara Cível da Infância e da Juventude, Rosilene Barroso explica que a vara situa-se na extremidade de toda uma rede de proteção e garantia de direitos da criança e do adolescente, acionada quando todas as tentativas para resolver os problemas de convivência na família biológica não se mostraram eficazes.

FILHA DO CORAÇÃO - "Eu tinha o desejo de ter um filho biológico e outro do coração e, graças a Deus, sempre tive o apoio do meu marido. Após alguns anos de casada, fiquei grávida da primeira menina. Tempos depois e com a primeira filha já crescida, sentimos que já era hora de colocar o sonho em prática, iniciando o processo de adoção, que se estendeu por dois anos. Em janeiro de 2015, a boa notícia veio: uma menina de 3 anos nos aguardava para ser adotada. Esse 'parto' estaria chegando ao fim, e a nossa pequena Júlia estava pronta para 'nascer' em nossos corações." O testemunho é da analista de recursos humanos Rosilene.

Casos de adoção de crianças com mais de 3 anos também são registrados em outras comarcas de Minas. A assistente social Angélica Silva, da Comarca de Uberaba, acompanhou a adoção de um menino de 5 anos: "O casal queria adotar um bebê, ficou anos na fila e, quando decidiu mudar o perfil pretendido, liguei para ele, alguns dias depois. Uma história bem difícil, pois a mãe da criança era falecida e ela tinha vínculo afetivo com o pai, que, por sua vez, enfrentava problemas de saúde e dependência do álcool, sem as mínimas condições de cuidar do filho".

A assistente social relatou que o menino foi para adoção em outro estado, com um casal habilitado no Cadastro Nacional de Adoção. "Tivemos muitos desafios na construção do vínculo dele com os novos pais, houve resistência em aceitar a nova família, a nova história, uma vez que demonstrava preocupação com o pai biológico. Consegui com que esse pai escrevesse uma carta para o filho, falando do desejo de que fosse feliz, aceitasse e respeitasse o casal, pelo qual tinha gratidão em tê-lo acolhido. Foi um momento muito importante!"

Angélica Silva defende a desmistificação da adoção tardia. De acordo com ela, a criança que viveu mais tempo com a família de origem e nas instituições de acolhimento pode ter vivido histórias muito difíceis de violação de direitos, negligência e violência - memórias importantes na constituição da história de vida. Porém, há um potencial muito grande para a construção de novos vínculos, especialmente quando é acolhida por famílias que desejam de fato ter filhos e assumir os desafios. "É preciso entender que não apagamos a história vivida. A origem é o lugar de onde essa criança vem, portanto merece respeito. Depois que o filho chega, seja pelo caminho biológico, seja pela adoção, ele é simplesmente filho", concluiu.

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